Déa Januzzi
Publicação: 05/08/2012 04:00
Os olhos azuis de Juçara Costta (só ela tem dois 'ts' no sobrenome) se afogaram na dor. Não se podia avistar mais os olhos límpidos e transparentes que iluminam a trajetória dessa artista plástica. Em 28 de julho, sábado, uma tragédia invadiu a vida de Juçara Costta e lhe roubou a paz, que sempre foi visível em sua postura e olhar. Dentro do avião bimotor King Air B-200, que caiu em Juiz de Fora, estavam Domingos Costa e o filho Gabriel, irmão e sobrinho de Juçara.
A dor de Juçara doeu em mim. Conheci seu Paschoal e dona Alba, os pais dela. Participei das bodas de ouro do casal. Dos lanches de domingo no apartamento de dona Alba, no Bairro Serra, para toda a família, reunindo filhos, netos e amigos. Era sagrado, ninguém podia faltar, porque era durante o lanche que dona Alba podia saber como estava cada um deles. Depois da morte de seu Paschoal, em 1997, me aproximei ainda mais de dona Alba, que tinha o sonho de ver a sua história em livro. Prometi que iria escrever o livro, com o consentimento e a alegria de toda a família. Cheguei a ler os primeiros capítulos para ela, que já estava doente na época. Ela não só aprovou como vi lágrimas escorrendo pelos seus olhos. Depois que ela partiu, não consegui mais dar continuidade ao livro, que fica sendo escrito, capítulo por capítulo, na minha cabeça e no meu coração.
Sempre gostei daquele jeito simples e contagiante de viver da família de Juçara. Tudo era motivo para festa. E Domingos, o único homem entre as irmãs, se tornou não só o presidente da Vilma Alimentos como cuidava de todos depois que os pais se foram.
Foi com Leonardo Costa, filho de Tânia, a outra irmã, que fiquei sabendo do cão-guia. Com problemas visuais, Leonardo morava na Itália e queria vir ao Brasil com seu cão-guia. O nome dela, da raça pastor alemão, era Lela. Como repórter, fiz uma série de reportagens no caderno Gerais para que o cão-guia fosse aceito nos restaurantes, hotéis, nos shoppings. Na época, nem se falava em cão-guia, mas junto com Leonardo houve uma campanha que culminou com as leis municipais, estaduais e federais que permitiam o livre acesso em todos os lugares de BH e depois do Brasil.
Com Juçara aprendi que a arte faz parte das entranhas dela, que o dom tem que ser cumprido e vivido. Com Juçara aprendi sobre biodança e o poder do abraço. Na minha casa, os quadros de Juçara falam de uma artista que nunca foi domada, de uma mulher forte e guerreira, mas que sempre viveu em paz com suas escolhas. Aprendi a tecer o manto das cicatrizes, a vê-la bordar para os filhos dela, Décio e Gustavo. Com Juçara, aprendi a gostar de cães. Ela amava os cães da raça rusky siberiano, que tinham os mesmos olhos azuis de Juçara. A gostar da tartaruga Frida. Aprendi a conhecer o poder do tarô, a decifrar os mistérios do universo, a conversar em profundidade sobre a vida, os amores, os desencontros, dissabores, a fazer faxinas na alma e no corpo.
É por isso que a dor de Juçara dói tanto em mim. Mas só Juçara sabe transcender a dor. Na segundafeira, depois de tudo, ela ainda encontrou lugar para os amigos. Juntos, eles cantaram mantras com Renato Motta e Patrícia, para espantar os espinhos dessa dor sem nome que é perder alguém tão próximo e precioso. Uma dor que não cicatriza nunca, mas para a qual Juçara saberá achar os próprios bálsamos.
É por todas as perdas, minhas e dos meus amigos, dessa orfandade, que digo: não dá mais para deixar nada para depois. Não deixem o abraço, a visita, a conversa, o livro, o encontro, o pedido de desculpas, o perdão, o almoço, a taça de vinho, o prazer de viver, porque pode não dar tempo depois.
